27 de abr de 2016

Os fundamentos visionário e artístico da educação tribal - Look to the mountain - Gregory Cajete


VISUALIZANDO AS VOZES DE NOSSO CORAÇÃO

Os fundamentos visionário e artístico da educação tribal

Visão geral

No desenrolar da educação indígena, os contextos visionário e artístico compartilham uma relação mutuamente recíproca. De fato, eles se interpenetram um no outro no compartilhamento e na elaboração do sonho, da imagem e da resposta criativa. Suas formas de expressão podem se diferenciar, mas suas raízes de significação refletem e celebram uma alquimia interior do artista/visionário cuja tarefa se torna aquela da representação, do compartilhamento e da celebração dessas raízes. É o sonho divino, e a representação de sua essência através de imagens simbólicas, que transforma ambos artista/visionário e usuário em um modo significante e comunica algum sentido significante. A visão e a arte estruturam e trazem à compleição um processo transformativo de aprendizado e desenvolvimento. A visão e a arte refletem a realidade dos humanos enquanto seres criativos, imaginativos e plenos.
Os caminhos da visão e da arte podem ser rastreados de volta à região do sonho e do mito, que são a origem e a motivação para a expressão criativa. O primeiro visionário, o primeiro artista, foi ninguém menos que o primeiro pajé, que santificou e legitimou sua visão através do sonho e do mito.
“Os índios Blakcfoot nos contam que foi o Homem Velho quem lhes mostrou como fazer tudo de que necessitavam. ‘Na base há sempre uma revelação divina, um ato divino, e o homem tem apenas a ideia brilhante de copiá-lo’... O primeiro rei-herói nascido-deus de todas as nações e raças – como Osíris no Egito e Quetzalcoatl no México – foi aquele que ensinou as artes e mostrou aos povos como fazer utensílios.”
De fato, é ao Primeiro Pajé que são atribuídas as visões orientadoras, as artes sagradas, o conhecimento da medicina, da caça, da construção, do aprendizado e da vida em determinado ambiente. O pajé foi o primeiro guardião de sonhos, o primeiro artista, o primeiro poeta, o primeiro caçador, o primeiro médico, o primeiro dançarino, cantor e professor. Enquanto o pajé personifica o visionário e o artista arquetípicos, estes são os potenciais que permanecem em cada um e em todos nós, cada homem, cada mulher, e cada criança. Os povos tribais entenderam e celebraram tais potenciais como uma vocação integrante do aprendizado, do ser, e do tornar-se completo.
Através do encorajamento, através do ritual, através do treinamento e da prática, os povos tribais formaram e guiaram esta reflexão do divino em cada um.
Este capítulo segue a trilha do visionário e do artista da América indígena. A primeira trilha revela a natureza do sonho e das visões enquanto vistas através dos olhos e das palavras dos visionários e dos artistas ameríndios, tanto do passado quanto do presente. A segunda trilha explora a função central da visão no contexto dos esforços educativos tribais. A terceira trilha reflete sobre a alquimia do processo criativo desde a perspectiva da orientação e da transformação. A quarta trilha adentra o reino da Cerimônia das Artes, tanto enquanto processo quanto enquanto contexto para aprendizado e entendimento profundo entre os povos indígenas.
De cada uma das trilhas mencionadas irradia anéis concêntricos que se sobrepõem, não apenas as outras trilhas, mas também os outros fundamentos do mito. A tríade do mito, da visão e da arte ressoa os fundamentos do ambiente, do afetivo e do comunal. O todo integrado da educação indígena se torna mais aparente quanto mais exploramos a dimensão do “lugar de que falam os povos indígenas.”


Criando através do sonho e da visão ameríndia

Sonho e visão são uma dimensão integrante da criação artística. Para os povos indígenas, existe um enorme corpo de crenças relativas à natureza dos sonhos e da visão. Este corpo de crenças é ele mesmo muito antigo, com suas raízes sendo lançadas há milhares de anos durante a explosão criativa do Paleolítico Superior. Foi quando  Neandertais e Cro-Magnons começaram a figurar seus sonhos nas paredes das cavernas, na argila, na madeira e na pedra. Deste diverso e extenso corpo de crenças, a compreensão de que os sonhos representam a vida de nosso espírito é o mais comumente sustentado e representado. Um dos fundamentos da vida espiritual Lakota é que buscar uma visão através da execução dos rituais adequados, do jejum e do sacrifício, leva o indivíduo ao contato com o mundo dos sonhos e a energia espiritual contida aí.
Entre os Lakota, os anciões dizem que tudo consiste de quatro contrapartidas espirituais únicas, ainda que integradas. Tais contrapartidas são similares ao que os teólogos ocidentais chamam de “almas”. A primeira destas almas é chamada “Niya” (sopro de vida) e é a essência que anima todos os seres e entidades. A segunda contrapartida é chamada “Nagi” e é similar à personalidade única que cada pessoa ou entidade ostenta, seja planta, animal, ou outra forma material. A terceira alma é chamada “Sicun” e é aquela propriedade especial, poder, ou modo de ser que a distingue como um grupo ou família. Por exemplo, Urso Pardo, Veado do Rabo Branco, Abeto Azul, Grama Doce ou Pedra Obsidiana caracterizariam grupos distintos ou entidades com traços e características particulares. A quarta alma, “Nagila”, é a energia básica universal que percorre todas as coisas; é a energia fundamental do universo, o sopro do Grande Mistério, o “Takuskan Skan” em todas as coisas.
Durante a Dança do Sol Lakota, o “Hanbleceya” (clamando por um sonho) é a hora em que, após extensivo jejum e sacrifício físico, as quatro almas dos dançarinos do sol devem ser ativadas para interagir com as almas de outros espíritos e entidades do mundo através de uma visão. Se o dançarino do sol tem bom coração e se preparou corretamente, ele pode entrar em um estado visionário de sonho. As interações que ocorrem entre as almas aí compartilham importantes conhecimentos e aprendizados que obrigam o dançarino do sol a partilhar com outros para o bem da vida do povo. Como afirma o artista e educador Lakota Arthur Amiotte:

“Somos mais do que seres físicos, a possibilidade de interação, barganha, e intercurso no interior de outras dimensões de tempo, espaço e ser, é a experiência do sonho para os Lakota: uma via alternativa de conhecimento.”

Enquanto via alternativa de conhecimento e aprendizado, o sonho tem contribuído com os povos indígenas de maneiras substanciais. Como com os Lakota, o sonho foi reconhecido por todas as sociedades ameríndias como um modo de criação e de entendimento da natureza essencial do relacionamento com o dentro e o fora de si mesmo. O uso e o contexto do sonho variam amplamente de tribo para tribo e de região para região. Mas em todo caso, o sonho e a forma mais ritualizada e estruturada de visão são uma parte integrante do ritual ameríndio, do cerimonial, e da filosofia da natureza.
Dentre algumas tribos, os sonhos e sua estruturação através do visionamento eram importantes o suficiente para garantir um status especial na organização social de uma tribo, com funções e designações especiais dadas ao interpretador de sonhos ou às sociedades de sonho que coreografavam as cerimônias de visionamento.
Sonhos eram tidos como importantes vias para vislumbrar o futuro, reencontrando aquilo que havia sido perdido, entendendo a causa de desarmonias psicológicas, e a origem de necessidades e desejos que deveriam ser honrados. Por toda a América indígena, os sonhos e o sonhar eram considerados essenciais ao sucesso e à felicidade na vida. Essa valorização dos sonhos estabelece o contexto psicológico e social necessário para receber, relembrar e incorporar os sonhos na realidade da vida cotidiana.
De fato, os sonhadores indígenas, num contexto social que valorizava os sonhos, desenvolveram amplas habilidades para planejar e manipular o conteúdo de seus sonhos em direção a um resultado desejado. Em toda tribo havia recompensas culturais e sociais para sonhos que ajudavam as pessoas. E através da recompensa aos sonhos culturalmente significantes, os índios reforçavam a função do sonhar na estrutura de seus seres sociais e culturais. Com tais incentivos, os sonhadores indígenas ativamente procuravam apanhar qualquer canção ou objeto de sonho que pudesse simbolizar algum aspecto do senso mais profundo de si mesmos, de seu povo, de sua tribo, ou de seu clã. Foi através de tais sonhos e visões que os índios criaram significativos rituais, cerimônias ou costumes, em nível pessoal e grupal, muitos deles ainda desempenhados hoje em dia. Os índios também deram formas criativas a seus sonhos através da arte, da música, da dança, da narrativa, da poesia, do ritual e da cerimônia. É através da arte que os povos indígenas continuam a comunicar seus sonhos hoje em dia.
No geral, os índios efetivamente usaram os sonhos numa grande variedade de situações de resolução de problemas e aprendizado que os levaram ao autoconhecimento. Para se alcançar isso foi necessário o desenvolvimento de uma compreensão prática e direta de uma ecologia da mente e do espírito raramente igualada na contemporaneidade. Desde as primeiras eras, as crianças foram condicionadas, não apenas a reverenciar seus sonhos, mas também a aprender como manipulá-los em direção a resultados desejados. Em resumo, muitos índios aprenderam a sonhar visando um efeito. Compreendendo seus medos, suas esperanças, suas ambições, e suas deficiências através da exaltação e do aprendizado de seus sonhos, muitos índios desenvolveram uma natureza resoluta e autossuficiente que os habilitaram a lidar com situações estressantes e enfrentar as provações e atribulações de suas vidas com alto grau de integridade.
Este legado do sonho, que ao tempo do primeiro contato com os europeus era tão aparente, pode ser revitalizado numa reafirmação contemporânea do processo educacional indígena. O poder de capacitação para entender e honrar o processo do sonho dentro do contexto de uma nova forma de educação indígena é um domínio largamente inexplorado. Hoje em dia, povos indígenas em todas as partes sofrem, em graus variados, de “esquizofrenia cultural”. Sendo constantemente confrontados com a adaptação de si mesmos a dois mundos e modos diferentes de ser causou confusões incontáveis e miséria, bem como disfunção social e pessoal entre os povos indígenas.
O processo educacional deve novamente reconectar a juventude indígena com seu íntimo criador e onírico. Através do processo artístico e da realização do processo visionário como parte do processo educativo, grandes avanços são possíveis na abordagem da desintegração cultural, social e pessoal que se tornou parte significativa das vidas de muitos povos indígenas hoje em dia. Negar a importância espiritual e psicológica do sonho, e não exaltar seu lugar no processo educativo, leva à atrofia de um processo elementar do aprendizado humano. Assegura que uma esquizofrenia cultural/social continuará a se manifestar entre os ameríndios e a cobrar seu pedágio em sangue, sejam eles jovens ou velhos, nas reservas ou nas cidades, miscigenados ou não.

A chave para tal dilema existencial descansa, em parte, no aprendizado e no entendimento da aplicação do processo criativo do visionamento de um modo direto e significativo num cenário educacional indígena contemporâneo. Visões são essenciais: são integrantes do éxito individual e comunal, e são fundamentais para a evolução da consciência e do desenvolvimento humanos.


Introdução do capítulo VI de
Look to the mountain – an ecology of indigenous education
de Gregory Cajete
Kivaki Press, Rio Rancho, New Mexico, USA, 1994.

Tradução: Charles Bicalho

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