1 de out de 2009

O Brasil e a Mostra Pajé - Por Marcos Henrique Coelho


Se qualquer um de nós for ao Museu de Biologia (ou História Natural?) de Nova Iorque e, ao encontrar lá uma folhinha qualquer, oriunda de uma floresta da "cazaquismênia", por exemplo, poderemos ficar orgulhosos ao constatar que seu nome científico estará grafado em latim. Pode haver ainda, junto a ele, o "nome popular" em hebraico, inglês, espanhol, "slavo" ou português, mas o nome "científico", este estará escrito em latim.
Se considerarmos que a marca mais forte do processo de colonização é a substituição e a imposição da língua do colonizador ao colonizado, devemos ficar orgulhosos, porque tal grafia em latim significa que o colonizador "neogermânico" não levou a cabo o processo de colonização dos povos "latinos", ao contrário do que é comumente divulgado por aí.
No último dia da Mostra Pajé de Filmes Indígenas tivemos o prazer de receber no escritório da Pajé Filmes o simpático casal Sueli e Isael Maxakali, conversando entre si em sua língua nativa. Confesso que fiquei prestando atenção naquela cena, tomado de satisfação e alegria, porque se consolidou minha convicção de que os "povos da floresta" – apenas para pegar carona na sábia expressão de Djalma Caxixó, Cacique desta etnia mineira – , que também nos representam enquanto brasileiros, jamais verão plenamente concretizado o seu processo de colonização.
É isto! Que se repercuta a diretriz para que os "povos da floresta" jamais abandonem sua língua original, além de outras tradições, é claro.
Para mim, continua a constituir-se um misto de mistério e estranheza, a expressão pictórica e iconográfica destes povos. Ao assistir seus filmes, começo a perceber que eles interferem e alteram contundentemente o conceito "clássico", porque de origem e estrutura aristotélicas, de representação da realidade que adotamos para nossa (não indígena, "ocidental") expressão audiovisual.
Bem, este é apenas o início ambíguo do caminho, no universo de várias especulações que podem surgir a partir deste contato um pouco mais aprofundado com as experiências audiovisuais dos "povos da floresta" e sua expressão imagética. Muita água ainda vai passar debaixo dessa ponte... Há mais perguntas do que repostas, certamente.
Após ajudar a organizar a 1ª Mostra Pajé de Filmes Indígenas, sou obrigado a me perguntar: "Afinal, onde fica esse tal Brasil, do qual todos nos orgulhamos durante os discursos-inflamados e as Copas do Mundo? Onde fica esse Brasil, do qual todos nós nos orgulhamos e que trata tão preconceituosamente os habitantes originais de sua terra?"
Cabe gastar tempo para pensar no assunto.

Belo Horizonte, setembro de 2009

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